Big Brother – 1984

Se você trabalha, instala, utiliza, administra sistemas de CFTV, câmeras, DVRs e sistemas de segurança em geral, já deve ter se deparado com alguma situação comparativa com o afamado “Big Brother”. Como durante a implantação de um sistema de CFTV, e surge aquele funcionário ou morador do local, que logo dispara a pergunta:

Então estaremos no Big Brother, agora?

Normalmente esta pessoa em está associando a situação real que está vivenciando ao programa BBB, mas talvez esteja traçando um paralelo em relação ao seu incomodo ocasionado pelo medo da invasão de sua privacidade, e normalmente também pelo seu próprio desconhecimento do sistema e de suas capacidades.

De certa forma exibição do Reality Show Big Brother Brasil e suas conseqüências leva-nos a pensar e a discutir questões como privacidade, invasão, limites, direitos e deveres no trabalho com imagens de pessoas no nosso dia a dia. Questões importantes que devem ser do conhecimento e do interesse de profissionais da área de segurança eletrônica.

Mas de onde surgiu o Big Brother? É um programa de origem Australiana com direitos de exibição detidos pela Rede Globo? Atualmente sim, para a maioria dos brasileiros Big Brother trata-se apenas do grande reality show, mas nem todo mundo conhece a origem do termo, sua rica história e sua importância dentro do contexto sócio-político do século XXI.

Eu acredito que, para os profissionais de segurança eletrônica, seja uma quase uma obrigação conhecer a origem do Big Brother, e assim ter uma idéia um pouco mais ampla a respeito do tema.

Na verdade o Big Brother ou Grande Irmão é um personagem do livro 1984, escrito pelo inglês George Orwell entre 1947 e 1948, lançado em 1949. Neste artigo, iremos descrever e comentar brevemente a obra, procurando difundir um pouco as idéias e conhecimento sobre o tema de privacidade, envolvido na obra, e sua relação com sistemas de CFTV.

Iremos introduzir trechos do livro, mas não aprofundaremos nem comentaremos seu final, deixando assim como sugestão a leitura da obra completa.

Sinopse Reduzida

O livro descreve uma realidade alternativa no ano de 1984, onde um sistema de governo domina o povo através do terror e miséria, controlando os passos e pensamentos de cada pessoa, e buscando formas de manter e perpetuar este controle.

Nosso herói é Wiston Smith, um Funcionário do Ministério da Verdade, frustrado com sua própria existência, e assim como toda a população indiferente perante seu governo. Ele está doente com sua existência patética, e começa a se questionar e questionar o governo, começa a lembrar situações ninguém mais lembra, e esse sentimento começa a consumi-lo e acaba por gerar a sua revolta contra o governo, contra o controle e contra o Grande Irmão.

Big Brother 1984
Big Brother 1984

Ele vive na Oceania, formada pelas Américas, Reino Unido e Austrália, é um dos grandes 3 blocos, que juntamente com a Eurásia, formada pela Europa e ex-União Soviética, e Lestásia formam a nova ordem mundial. Durante a passagem do livro, hora a Eurásia e Lestásia, formada pela China, Indochina, Japão e Mongólia se alternam como inigos e aliados da Oceania, na grande gerra em disputa.

Seu trabalho no Ministério da Verdade, ao contrário do que o nome diz, é alterar as notícias antigas, mudando continuamente acontecimentos passados, alterando datas, mudando os inimigos, apagando pessoas da história, aqueles que desapareciam nas mãos do partido, através de terrível “Polícia do Pensamento”, que simplesmente viravam “impessoas”.

Todos as pessoas, exceto os “proles”, que seriam a maior parte da população vivendo a sombra da sociedade na miséria e ignorância, são controladas pelo partido e pelas teletelas, que são aparelhos fictícios que combinam câmera, áudio, televisão e monitor, onde são continuamente exibidos programas de instruções para as pessoas, e ao mesmo tempo todos são monitorados e controlados pelo partido no trabalho, em casa, na rua, etc.

Em sua rotina seguindo as ordens do governo, ele se depara com questões éticas pessoais e passa questionar as verdades impostas pelo partido. Mas não existe nem é permitida a amizade, somente o trabalho e uma convivência forçada e programada, dessa forma em sua solidão ele busca alternativas para externar suas frustrações. Acaba por comprar um caderno e um lápis onde começa a anotar seus pensamentos, tudo isso de forma ilegal, escondido em um “área de sombra” de captação de imagens da teletela, pois não é mais permitido escrever. Em sua fuga da realidade, escondido do campo de visão da teletela, Winston percebe que odeia o sua vida, odeia o partido e principalmente odeia o Big Brother.

O Sistema de governo é comandado pelo Big Brother ou Grande Irmão, que é uma figura referencial, é a principal figura do regime, com uma imagem ativa e presente. Ele que nunca aparece realmente, mas é omnipresente e omnipotente, herói de gerra, conhecedor das soluções e verdades absolutas. O Grande Irmão é o estado e governa com mão de ferro cada um dos cidadãos da Oceania, inclusive seus pensamentos, atividades e vontades. O partido é um grupo que se mantém no poder através de práticas similares aos nazistas, comunistas ou fascistas, entretanto, tem um único e principal objetivo explícito, perpetuar-se no poder. O lema do Grande irmão é:

“Big Brother is Watching You” ou seja o “O grande irmão está observando você”

Dessa forma, o Big Brother está sempre controlando, supervisionando, gerenciando, punindo, enfim exercendo seu poder supremo sobre cada pessoa na Oceania, através das poderosas Teletelas, as quais cada cidadão era obrigado a utilizar, ininterruptamente. Aqui está provavelmente a principal relação com o Circuito Fechado de Televisão, a captura de imagens e áudio, o acesso remoto as informações, a base de controle que gerencia isso, a interação com os cidadãos pela teletela.

Este controle é executado de diversos formas, incluindo a manipulação da língua. Na qual o Ministério da Verdade criou um novo idioma, a Novilíngua, criado para não permitir a expressão de opiniões contrárias ao regime. Entre outras a manipulação de notícias, limitação de mantimentos, controle da verdade, ocupação dos cidadãos em tempo integral, controle do crescimento populacional, controle de relacionamentos, um estado permanente de prontidão e gerra, entre outros.

Todos eram obrigados a participar dos dois minutos do ódio, que era uma espécie de encontro onde a revolução e inimigos do regime eram histericamente atacados, xingados e contrariados, sendo apresentados nas grandes teletelas. As pessoas extravasavam toda sua raiva contra Emanuel Goldstein lider da Fraternidade contrária ao governo, reforçando seu apoio ao partido e ao Grande Irmão de forma veemente.

Um outro conceito interessante que o livro explora é o duplipensar segundo o qual é possível o indivíduo conviver simultaneamente com duas crenças totalmente opostas e aceitar a ambas. Um exemplo do duplipensar é próprio lema do partido:

“Guerra é paz,

Liberdade é escravidão,

Ignorância é força.”

No transcorrer da trama, Winston conhece Júlia, uma aparente fervorosa ativista do partido, mas que revela-se também contra o partido, os dois se apaixonam e demonstram uma grande afinidade em seu descontamento com o mundo em que vivem e contra o partido. Infringindo todas as leis e regras do partido se encontram regularmente em locais proibidos e procuram traçar paralelos e buscar suas raízes para um mundo anterior e diferente do mundo em que vivem, constroem juntos uma nova realidade, mesmo que temporária, a qual aparentemente ninguém poderia tirar deles. Winston recupera sua saúde e vontade de viver ao lado de Júlia, conspirando contra o regime.

A revolta de Winston, cada vez aumenta mais, conforme ele se dá conta das atrocidades cometidas pelo partido, pela inacreditável manipulação da verdade, pela tipo de vida que ele, e todos os outros eram obrigados a viver. Logo ele conhece O’Brien, um alto membro do Partido Interno com quem simpatiza, e acaba por envolver-se ao acreditar na sua participação na revolução que está em andamento, para tentar acabar com o regime.

O’Brien, de forma incomum, convida Winston a ir ao seu apartamento para ver a nova edição do dicionário de novilíngua. Winston fica muito animado com o convite e iminente possibilidade de participação na revolução, passando a acreditar que não era apenas uma propaganda, que era real, e que podia fazer parte dela.

Para o encontro Winston também leva Júlia. O’Brien logo desliga a teletela de seu luxuoso apartamento, para surpresa do casal, pois para eles ninguém podia desligar a teletela. Mas alguns membros do partido Interno tinham esta permissão. Winston revela seu desejo de conspirar contra o Partido, acreditando na existência da Fraternidade e que O’Brien seria seu mentor para participação. O encontro foi acompanhado com uma excelente garrafa de vinho, o que era impossível para pessoas normais. O’Brien faz com que Winston abra seu coração e aceite cometer qualquer tipo de ação para ajudar a causa, explicando como funciona a revolução onde nenhum agente conhece os outros, evitando assim que a revolução seja desarticulada. Dias depois, O’Brien envia para Winston o “Livro de Goldstein”, o qual explicava a revolução e funcionamento do governo.

No livro de Golstein, é exposta a teoria da Guerra. Segundo ele, o objetivo da guerra não é vencer o inimigo, nem lutar por uma causa. O objetivo da guerra é manter as classes altas no poder, limitando o acesso das classes baixas à educação, alimentação, cultura e aos bens materiais das classes baixas. A guerra serve para destruir os bens materiais produzidos pelos pobres e para impedir que eles acumulem riquezas e bens, adquirindo cultura e extirpando a possibilidade de se tornarem uma ameaça aos poderosos. Assim, o lema do Partido, Guerra é Paz, é explicado por Emmanuel Goldstein: “Uma paz verdadeiramente permanente seria o mesmo que a guerra permanente”, ou seja os objetivos internos são mantidos, e a gerra externa é fictícia.

Mesmo que Júlia não tivesse o mesmo interesse no livro, Winston acredita que as proles seriam a única força capaz de vencer o regime. Mas ao mesmo tempo falava para Júlia, “Nós somos os mortos” ao contemplar a vida simples da prole. Na verdade, ignorância dos menos abastados não era perigo para o Partido, que os deixava a beira da miséria e ignorância, não sofrendo a mesma repressão que os membros, superiores e inferiores do Partido, a classe-média.

Mas logo eles conhecerão uma nova face do partido, o quarto 101 e seus verdadeiros limites e no final mudarão para sempre sua forma de encarar o partido a as suas próprias vidas.

De fato, 1984 é uma metáfora sobre o poder, sistemas controle, a dominação e passividade dos povos e as sociedades modernas. George Orwell escreveu-o buscando criar uma nova visão crítica sobre os sistemas de governo da época, percebendo os rumos do stalinismo entre outros regimes totalitários que predominavam nesta época na Europa e Ásia. Além de Stalin, também Hitler, Mussolini foram algumas das figuras que inspiraram Orwell a escrever o romance.

Analisando, alguns trechos do livro, entre eles o capítulo referente ao “Livro de Goldstein”, muitas coisas, assemelham-se a situação contemporânea dos países “em desenvolvimento”, ou do antigo terceiro mundo, onde a grande massa da população é mantida na miséria e longe da educação, permitindo assim a perpetuação do mesmo grupo no poder. A economia é mantida na base da recessão e crise iminente, e controle da economia de forma a não permitir o crescimento e distribuição das riquezas. Este tipo de controle não parece familiar?

Trata-se de uma obra complexa e bastante rica, logo no inicio do livro ele toma nossa atenção por completo e é impossível parar de ler. O livro também virou filme justamente 1984, um filme inglês produzido em Londres, muito fiel ao livro, mas sem grandes atores ou efeitos especiais do estilo hollywoodiano.

O filme está disponível na internet, está em inglês, mas é uma boa pedida, pois é um clássico. Mas apesar disso, recomendo a leitura do livro antes de assistir ao filme.

Trailer do Filme

Para finalizar é importante que busquemos uma visão mais aprofundada sobre o tema, quem sabe questionando e discutindo nossa própria estrutura atual, assim como especializando-nos cada vez mais em nossas atividades com sistemas eletrônicos de segurança e principalmente de Circuito Fechado de Televisão que possam melhorar a segurança das pessoas, garantindo um uso ético e consciente dos recursos tecnológicos atuais. Acima de tudo sempre buscando a preservação do meio ambiente, economia de energia, educação, distribuição de renda e conhecimento, com ética e consciência de que construir um mundo melhor depende de cada um de nós.

Referências:

 

Se desejar obter maiores informações sobre dispositivos, projetos, aplicações e tecnologias IoT, entre em contato comigo através do e-mail marcelo@guiadocftv.com.br, terei o maior prazer em compartilhar meu conhecimento e trocar informações.

 

Engº Marcelo Peres 

mpperes@guiadocftv.com.br

Guia do CFTV

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Eng° Marcelo Peres

Eng° Eletricista Enfase em Eletrônica e TI, Técnico em Eletrônica, Consultor de Tecnologia, Projetista, Supervisor Técnico, Instrutor e Palestrante de Sistemas de Segurança, Segurança, TI, Sem Fio, Usuário Linux.

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