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Escritórios de SP criam em outras cidades arenas para receber a Copa 2014

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Um time de arquitetos paulistanos cuida da maioria dos estádios que vão ser construídos no país. Eles assinam projetos em seis das 11 capitais que já confirmaram sua participação em 2014.

Alguns com mais, outros com menos experiência na área de arquitetura esportiva, eles tiveram que criar estádios bem diferentes dos existentes no país, seguindo diretrizes da Fifa como visibilidade total em toda a arquibancada, foco na sustentabilidade e versatilidade para manter uma ocupação mínima após a Copa. "Futebol é a menor preocupação. Até vai ter futebol, mas a ideia é que haja uso constante dos estádios, com shows e outros eventos", diz Eduardo de Castro Mello, responsável pelo projeto de Brasília.

Os arquitetos participam de encontros organizados pelo Sinaenco (Sindicato da Arquitetura e da Engenharia) e viajaram à África do Sul e à Europa para conhecer as arenas onde foram realizados os últimos Mundiais. "Os nossos projetos estão muito próximos dos internacionalmente consagrados", diz Carlos De La Corte, consultor técnico do comitê da Fifa. Todos passaram por sua aprovação, e cabe à sua equipe acompanhar as obras.

Em três meses, deve ser implantado um monitoramento por câmera em todos os estádios. As imagens vão facilitar a fiscalização do cronograma, além de evitar viagens em casos de pequenas dúvidas de execução.

Antes do anúncio da construção do estádio do Corinthians, os arquitetos de escritórios paulistanos torciam para que a cidade não fosse excluída dos jogos. "É um absurdo a capital mais importante da América Latina não ter estádio para a Copa", afirma Sérgio Coelho, que projetou a Arena Cuiabá.

Daniel Fernandes, responsável pelo projeto de Recife, acredita que São Paulo deveria ser sede de vários jogos. "Parece um desperdício que uma cidade com uma infraestrutura como a nossa, com tanto a oferecer em transporte, hotéis etc., fique restrita a poucos jogos. Enquanto outras cidades têm o estádio resolvido e muita coisa por fazer, a gente tem o resto encaminhado ou feito e nosso problema é estádio."

Patricia Stavis/Folhapress
Daniel Fernandes, arquiteto, na sala de reuniões do escritório dele, localizado na rua Funchal –zona sul de São Paulo

RECIFE

Arquiteto versátil faz um estádio idem
Enquanto muitos arquitetos preferem se especializar em uma área, Daniel Fernandes, 37, optou pela variedade: seu escritório já projetou casas, hospitais, estações de metrô, bares, indústrias. "É natural que, no início da carreira, o arquiteto faça o que aparece. Mas, com o tempo, muitos escolhem um nicho. Comigo isso não aconteceu. Gosto de variar."

Os projetos esportivos surgiram há três anos, quando seu escritório projetou uma arena multiúso para o Grêmio –que não foi executada– e outra para a Ponte Preta –em análise de viabilidade. Foi seu primeiro contato com as diretrizes da Fifa, úteis também no projeto da Arena Pernambuco, que ele elaborou com os colegas Luís Henrique de Lima e Paulo Eduardo Jr.. "Elas não são uma receita de bolo. São um reflexo das melhores práticas."

As orientações ajudam a fazer um estádio que vai além do futebol. "Antigamente, estádio era arquibancada. Hoje eles são multifuncionais. Têm que receber shows, eventos empresariais, casamentos", exemplifica.

Filho de um arquiteto e de uma engenheira, Daniel faz alguns projetos em parceria com os pais. Ele tem um casal de gêmeos de cinco anos e é casado há 12 com uma designer que montou um comércio on-line de vinhos. "Só dou uns golinhos de vez em quando. Ela bebe pelos dois", brinca.

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CUIABÁ

Criando um estádio que vai encolher
Apesar de não ter muita experiência em arquitetura esportiva, Sérgio Coelho, 48, não projetou a Arena Cuiabá por acaso. Além de já ter feito projetos na cidade mato-grossense, ele é especialista em grandes empreendimentos. Seu escritório, a GCP, tem como principais clientes indústrias como a Unilever e grandes empresas varejistas como o Ponto Frio.

Sérgio também é fã de esportes: santista, viu Pelé jogando e é frequentador de estádios. Até pouco tempo atrás, andava de skate.

Ele trouxe da Inglaterra a tecnologia que permite "desmontar" parte da arena, reduzindo o número de espectadores de 43.600 para 28 mil. Será uma forma de tentar diminuir a ociosidade após a Copa. A ideia também é que o local abrigue, no futuro, shows, torneios de motocross, centro de convenções e até faculdade.

Sérgio adora São Paulo –o fato de morar a quatro quadras do escritório e de poder fugir de vez em quando para sua casa em Juqueí (litoral de SP) dá uma mãozinha. Gosta de música, de sair à noite e, até há pouco tempo, pintava quadros. É casado e tem um filho de dez anos.

Fez questão de conferir de perto, por conta própria, a Copa na África do Sul: lá, vivenciou o conceito da Fifa de deixar o torcedor bem perto do campo. "É muito legal. Você vê o Messi do teu lado. Fui por razões profissionais, mas também, obviamente, para ver jogo do Brasil, né?"

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Patricia Stavis/Folhapress
Arquiteto Danilo Carvalho, 38, que também já projetou estádios para o interior de São Paulo e prestou consultorias

MANAUS

Quase duas décadas projetando estádios
O primeiro emprego de Danilo, 38, assim que se formou, foi na Secretaria de Esportes e Turismo. Projetou estádios para o interior de São Paulo, prestou consultorias e somente agora, 18 anos depois, vai ver criar forma uma arena que leva sua assinatura. "Desde a década de 1970, poucos estádios foram construídos. Por isso, além da oportunidade de negócio, a Copa do Mundo é a realização de um sonho", diz o arquiteto, envolvido em quatro projetos.

Danilo é coautor dos estádios de Manaus e Cuiabá, executor de projetos complementares da Arena das Dunas, de Natal, e fez consultoria para o Mineirão, em Belo Horizonte, nas questões referentes às recomendações da Fifa.

"Os requisitos são tangíveis e coerentes. Tem a questão da segurança, de você conseguir evacuar um estádio em oito minutos. É preciso uma junção de expertises", afirma Danilo, que há dois anos criou a Stadia, especializada em projetos esportivos. O objetivo, agora, é participar de licitação para gerenciamento dos estádios.

"Nessa função, você acompanha a obra, confirma especificações e faz a interface entre o cliente a construtora", explica o arquiteto, que chegou a ser goleiro do time do Banespa na adolescência. Sem sucesso, Danilo trocou de gramado: treina beisebol e aprendeu a curtir o futebol sob outro ângulo.

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Christian von Ameln/.
Arquitetos Héctor Vigliecca, Luciene Quel e Ronald Werner Fiedler na sede de seus escritórios nos Jardins, em SP.

FORTALEZA

Observação in loco das arenas das Copas
Héctor Vigliecca, 69, já era arquiteto quando chegou a São Paulo, em 1974. Em 1995, em sociedade com Luciene Quel, 41, criou o escritório. Em 2005, Ronald Werner, 31, juntou-se ao grupo. Hoje, os três assinam o projeto do Castelão, o estádio de Fortaleza. "O trabalho é de transpiração, por isso fazemos em equipe. O som é como o de um quarteto de cordas. Não se distinguem as diferenças", diz Héctor.

Logo após a Copa de 2006, o trio passou um mês percorrendo os estádios da Europa. No ano passado, foi a vez da África do Sul. A observação in loco dos espaços e as mais de quatro décadas de profissão fazem Héctor comemorar a tecnologia que vem junto com a Copa. "Dos softwares de segurança a estruturas estaiadas e coberturas autolimpantes, o Brasil vai receber muita coisa nova", afirma.

Professor do Mackenzie, ele fica atento aos bons alunos. Seu escritório sempre recebe estagiários, e foi assim que Ronald começou a trabalhar lá, antes de terminar o curso. "Estava de olho nele", diz o dono de 86 prêmios nacionais e internacionais. Em 2003, ficou em 4º lugar no concurso para a construção do Grande Museu do Egito, dentre 2.000 inscritos. Foi o único não europeu entre os dez primeiros.

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Héctor Vigliecca

Ronald Werner

Luciene Quel

Nasceu em: São Paulo
Graduação: Mackenzie/1995
Bairro em que mora: Jardins
Torce para: não revela

Outros projetos: modernização do Ginásio de Esportes do Ibirapuera; Complexo Aquático da Unisul (SC)

Patricia Stavis /Folhapress
Eduardo Castro Mello, que é um dos arquitetos responsáveis pela construção de um dos estádios para a Copa do Mundo

BRASÍLIA

Talento passa de pai para filho
O esporte na vida de Eduardo de Castro Mello, 65, é herança de família: atleta renomado, seu pai, Ícaro Castro Mello, foi precursor da arquitetura esportiva no Brasil. Desde pequeno, Eduardo acompanhava o trabalho do pai. "O escritório dele era meu playground. Eu ficava desenhando. Sem querer, aprendia", lembra.

Ele define a arquitetura da época como "mais artesanal". Até hoje, apesar de mexer no computador, prefere projetar com lápis e papel.

Corintiano "desde que nasceu", o arquiteto chegou a projetar um novo estádio para o time, em 1980, que não saiu do papel. Apesar de hoje estar parado, já praticou muitos esportes e foi, inclusive, campeão paulista de vela.

Casado com uma poeta e artista plástica, Eduardo tem dois filhos, que trabalham no seu escritório. Um deles, Vicente, 34, fez junto com ele o projeto da arena que vai substituir o estádio Mané Garrincha, de Brasília.

Foi Eduardo, aliás, que projetou, com o pai, o estádio original –que é tombado e só poderia ser modificado por ele. Além de seguir orientações da Fifa, ele teve que se ater às regras da Unesco para o patrimônio histórico. Os planos de reforma incluem uma varanda em volta do estádio, assim como os palácios do entorno, de Niemeyer.

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SALVADOR

Com a ajuda do Senhor do Bonfim
Quando Marc Duwe, 40, foi a Salvador inscrever seu projeto para o estádio da Copa, comprou uma pulseira do Senhor do Bonfim. O baiano que vendeu o apetrecho avisou: faça três pedidos e deixe a pulseira se desfazer sozinha. Marc repetiu três vezes a mesma prece "quero fazer o estádio", tomou o avião de volta a São Paulo e esperou. Numa sexta-feira de 2009, o cachorro do arquiteto puxou o braço dele e retirou a pulseira. Na segunda, saiu o resultado: Marc havia vencido e seria dele o projeto da Nova Fonte Nova.

Filho do engenheiro Duwe, um alemão que chegou ao Brasil na década de 1960 para a construção das primeiras estações de metrô, Marc seguiu os passos do pai e se destaca pelos trabalhos em transporte: assina quatro estações da linha amarela.

A estreia no esporte aconteceu despretensiosamente. Em 2006, após ler uma reportagem sobre os estádios da Copa da Alemanha, mandou um e-mail aos arquitetos: "Caso o Brasil seja escolhido para sediar a Copa, você teria interesse em uma parceria?". Tornou-se parceiro de Class Schulitz, do estádio de Hannover. "É um projeto com características especiais, por isso nos unimos a quem entende."

Hoje, dia 29, Marc vai ver pela TV a demolição do anel superior do Fonte Nova. Em 2014, ele quer se misturar à multidão para assistir aos jogos no Nova Fonte Nova. "Vamos manter os partidos arquitetônicos originais, mas atender às recomendações da Fifa."

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Origem: Folha Online
 
Engº Marcelo Peres
Editor do Guia do CFTV

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