Rokid Glass T2: testamos os óculos de RA que mostram quem está com febre

Para combater o novo coronavírus (SARS-CoV-2), inúmeras tecnologias foram repensadas — ou ainda desenvolvidas — para atender as demandas da pandemia. Entre eles, estão o uso de drones para a higienização de grandes áreas, os robôs de telepresença para evitar o contágio dentro dos hospitais e os óculos de Realidade Aumentada (RA) com sensor infravermelho, sem contar as tecnologias adotadas para desenvolver as vacinas contra a COVID-19, já em uso, num tempo recorde. Pensando nestas inovações e na praticidade do uso, o Canaltech testou os óculos Glass T2, da startup chinesa Rokid, em plena Avenida Paulista, na capital do estado de São Paulo.

Para verificar possíveis casos da COVID-19 em espaços de alta circulação de pessoas, aeroportos internacionais e estações de trem de países na Ásia, como Japão e a própria China, começaram a adotar câmeras com sensor infravermelho, também conhecidas como câmeras térmicas, ainda nos primeiros meses de 2020.

Em um segundo momento da pandemia, estabelecimentos comerciais ou não de todo o mundo —  como escolas, mercados e shoppings — adotaram termômetros com sensor infravermelho para aferir a temperatura das pessoas, em alguns casos, com baixa efetividade. Uma terceira via para medir a temperatura de pessoas seriam os óculos de RA, já que são portáteis e estão em uso, de forma massiva, em alguns países também.

No entanto, vale o questionamento do porquê adotar ferramentas para verificar a temperatura das pessoas e de que forma isso pode ajudar no rastreamento de casos da COVID-19. Nos primeiros dias, a infecção por coronavírus pode causar reações semelhantes às de uma gripe, como dor no corpo, tosse e coriza, só que esses são sintomas de difícil verificação por terceiros. Afinal, não dá para aguardar até alguém tossir, por exemplo. Em contrapartida, o ideal seria a realização de testes  para a infecção em pessoas que estão circulando, mas esta é uma medida que demandaria tempo e altos custos.

Por outro lado, a temperatura corporal é um medidor objetivo, fácil de ser verificado e abrangente — exceto para casos assintomáticos da COVID-19. Basta a pessoa apresentar uma temperatura  maior que 37,5 °C para se tornar um potencial infectado em um contexto onde há alta circulação do coronavírus, como a cidade de São Paulo. Foi com esta ideia em mente que saímos para a rua com os óculos Rokid Glass T2, verificando a temperatura dos transeuntes de uma das principais avenidas do país.

Vale destacar que respeitamos as medidas de segurança contra o contágio da COVID-19 e estávamos munidos de máscara protetora e álcool em gel 70° durante os testes do equipamento. Além disso, a experiência aconteceu antes do Governo do Estado de São Paulo anunciar o regresso da capital para a Fase Vermelha do plano de contingenciamento. A seguir, confira nossa análise da ferramenta em primeira pessoa.

Meio “ciborgue”: RA na Paulista

De forma bastante intuitiva, o Rokid Glass T2 adota o sistema Android, aceita comandos de voz e, em sua interface, traz ícones de fácil reconhecimento, como a função de aferição de temperatura. São necessários apenas alguns minutos para a calibragem do equipamento e, então, já é possível aferir as temperaturas. No todo, ele é dotado de uma câmera central entre as lentes e, para aferição de temperatura, há uma segunda câmera com sensor de imagem térmica por infravermelho acoplada em uma das hastes. Esta última foi a única que usei durante os testes.

Segundo informações levantadas pela empresa sobre os óculos, eles podem detectar com precisão temperaturas de 35,3 ℃ até 42 ℃, com uma oscilação de ± 0,3 °C. Para isso, é necessário estar entre três a seis metros de distância das outras pessoas e mirar a câmera com sensor para os rostos destes indivíduos. A imagem formada tem mais de 100 mil pixels, melhorada por algoritmos de IA, e é reproduzida em apenas uma lente dos óculos.

Como a câmera infravermelha é externa, não é tão simples coordenar a visão, já que ela se difere daquela formada pelos olhos. Nesse sentido, os primeiros minutos foram de completo estranhamento, principalmente com as informações projetadas na lente dos óculos se misturando com a minha própria visão. Em outras palavras, para medir a temperatura de uma pessoa que está no ponto A, é preciso mirar no ponto A+B. Isso considerando os poucos centímetros de distância entre a câmera e o meu olho. Eu acabei me sentindo confuso até me adaptar, mas, quando “absorvi” a tecnologia, já me sentia meio ciborgue.

Um adendo é que os óculos não precisam, necessariamente, ter as lentes escuras, como usei. Na verdade, as lentes escuras são magnetizadas e, por isso, destacáveis. Caso a pessoa já use óculos corretivos ou lentes de contato, é possível encomendar uma lente escura especial para o equipamento. Sem elas, há apenas uma lente transparente retangular arredondada, onde serão formadas as imagens captadas pelo equipamento.

Hora de verificar a temperatura das pessoas

Agora, para medir a temperatura das pessoas é necessário escolher entre dois modos: o multi e o single. Em ambos, a aferição leva apenas alguns segundos e é possível ajustar o foco das imagens captadas. No modo de medição individual de temperatura, é preciso concentrar e mirar a câmera em um único indivíduo —  o que considerei mais certeiro e prático. Já no modo multi, a ferramenta rastreia a temperatura da maioria das pessoas que estão no campo de visão do sensor térmico, no entanto, a seleção de temperaturas exibidas é autônoma e não necessariamente aparece para todos. O limite é de 10 pessoas por vez neste modo, mas em nenhum momento alcancei essa taxa de forma simultânea.

Talvez a experiência tivesse sido diferente, caso as pessoas para quem olhei não estivessem usando máscaras ou se eu tivesse olhado diretamente para a parte frontal do rosto delas, como um segurança na entrada de estabelecimentos comerciais. Pensando na pandemia da COVID-19, a aferição de temperatura de forma rápida e com uma distância segura (de pelo menos três metros) pode ser bastante benéfica. Neste aspecto, valeria tanto as medições individuais de temperatura quanto profissionais treinados verificando aleatoriamente as condições dos indivíduos em um aeroporto, por exemplo. No mundo, países como a China, o Chile e a Hungria já adotam a tecnologia da Rokid para estes fins.

É importante destacar que o equipamento pode gravar todas as imagens —  na maioria das vezes saturadas, com esse aspecto bastante avermelhado, digno de mapa de calor, ou em P&B — captadas, caso a função seja acionada, e também poderia ser transmitido tudo o que estivesse vendo, em tempo real, para outras telas. Para fins de curiosidade, os 59 minutos de gravação, feitos durante o tempo em que experimentei os óculos na Paulista, geraram um arquivo MP4 de 2 MB. Nesta quase uma hora de uso, não senti nenhum desconforto devido ao “peso” do modelo de 96 g.

Por sorte, os óculos não identificaram nenhuma pessoa com febre durante a minha caminhada pela Avenida Paulista, o que me faz pensar que as pessoas com algum mal-estar devem estar se impondo um auto-isolamento (ou não). Caso o equipamento tivesse identificado alguém com temperatura igual ou superior a 37,5 ℃, seria emitido um alerta sonoro, destacando a temperatura corporal daquele indivíduo. A exceção dos testes foram pessoas que passaram correndo, durante atividades físicas ao Sol, onde é esperado uma temperatura corporal mais elevada.

Segundo a consultoria responsável por trazer a tecnologia para a América Latina, a ComplexSys, o valor inicial dos óculos com o sensor infravermelho incluso pode sair por US$ 3.000,00 — em conversão direta, cerca de R$ 17.200,00 —  e a autonomia da bateria é de 8h após uma carga completa.

 

João Marcelo de Assis Peres

joao.marcelo@guiadocftv.com.br

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